Introdução


Fotografia e escrita são especiais, para mim. Através da fotografia vou observando e sentindo a vida, através da escrita vou compreendendo a vida e, através dela, as pessoas. Em última instância, gosto de fotografar e de escrever porque através das imagens e das palavras consigo sentir e compreender um pouco melhor o significado da natureza humana, tocando pessoas e deixando-me tocar.

A vida é sempre complexa, porque em tantos aspectos essenciais envolve pessoas, e as pessoas são complexas. Aí reside, no entanto, a beleza da vida, porque beleza exige complexidade. Aliás, apenas complexidade permite o mistério e a incerteza; e complexidade permite que a ordem emergente desponte naquela fronteira fascinante entre a ordem e o caos, dando razão de ser à palavra significado. Sinto-me bem nessa fronteira em que os significados despontam. É aí que gosto mais de me situar.

Provindo de um contexto científico algo esotérico que tem tudo a ver com luz, a fotografia toca-me ainda porque luz permite não apenas a visão mas também a própria vida. É simples: do lado da visão, as cores, as formas e as sombras revelam-nos a natureza das coisas às quais reagimos das formas mais variadas; do lado da vida, as partículas de luz a que chamamos fotões alimentam a vida.

No fim de contas, a nossa vida tem tudo a ver com pessoas. Por essa razão, gostaria que a minha fotografia pudesse contribuir para sarar algumas feridas que elas possam ter, fazendo-as sentir um pouco melhor, um pouco mais em paz consigo próprias e com o Universo. Como? Partilhando cores, formas, sombras e palavras que têm algum grau de intimidade e que convidam.

As imagens e as palavras contidas neste livro lidam com a natureza humana e, no seu conjunto, fazem parte do puzzle que descreve um ser humano particular. Mas isso não deverá constituir surpresa… não somos nós puzzles para ser desbravados? Ou caleidoscópios de imagens para serem sentidas? Ou livros de palavras para serem lidas?

Gostaria que este livro tocasse de certa forma a alma de cada pessoa que o lê… e que, por sua vez, essa alma tocasse de volta a minha.

Esta é a minha casa e nela as pessoas são bem-vindas. Obrigado pela vossa visita.


:: José António Salcedo, in “Percursos de Vida”, Introdução