Críticas


CUMPLICIDADES EM «PERCURSOS DE VIDA»
Teresa Sá Couto, in comlivros-teresa.blogspot.com

José António Salcedo abre-nos a sua casa e mostra-nos «Percursos de Vida». Percursos dele, mas também percursos nossos. A dádiva está num álbum surpreendente com fotografias e textos do autor numa relação de cumplicidade que atinge em torrente o receptor-leitor. Se uma imagem tem sempre um espelho e um mapa, a estas juntam-se-lhes os textos e, assim, cumpre-se o círculo do enleio.







Conivências, ensinamentos, incentivos do autor que diz: «libertar a alma é sempre um pouco penoso. Vou ter de enfrentar alguns medos e realidades. Vou ter de enfrentar a forma como cresci ou não. Vou ter de perceber se consigo mesmo voar e se ainda sei dançar.».
Impulsionados pelo «pajaro Dunes», que dança no daguerreótipo, partimos no adejar de sensações. Assim se faz a arte: ela absorve a alma de cada um para lha devolver, iluminada, extasiada e purificada. Assim se faz magia.
Com equipamento de produção fotográfica Nikon e um computador portátil Macintosh, José António Salcedo apresenta o seu olhar da realidade e realiza o paradoxo: sendo a fotografia a forma objectiva de representar o real – daí o nome das lentes objectivas –, e de a estatizar, aprisionando-a num momento, nestas fotografias sobressai o movimento. Para isso contribui o forte poder evocativo e a polissemia das imagens que suscitam movimentos cognitivos de reconhecimento e recriação. Outrossim, a escolha maioritária do preto e branco ou a dita «cascata de cinzentos» contribui para a vertigem de sentidos – o preto e branco instiga mais cores que a cor, porquanto permite ao observador imaginá-las segundo o seu mundo interior. Pretendem-se percursos de intimismo e tudo conflui, coerentemente, nesse sentido.
Na Introdução, à laia de prefácio, o autor explica a união da fotografia e da escrita: «através da fotografia vou observando e sentido a vida, através da escrita vou compreendendo a vida e, através dela, as pessoas», «tocando as pessoas e deixando-me tocar», acrescenta-se. A organização temática em três grandes partes – «Vida em redor», «Vida para dentro» e «Vida para a frente» – consolida o objectivo. Assim, em «Vida em redor» pretende compreender-se um sentir que se preenche com visões de um homem que «adora fotografia porque adora a vida, mas uma criança que utiliza a fotografia para chegar às almas.».
O contexto esotérico da luz captado pela objectiva é uma das linhas de força de todo o trabalho e o grande motor da reflexão. Em «A vida é como esta imagem» regista-se o momento fugaz em que o sol desenha percursos de luz e sombra, «portas abertas, portas fechadas, portas na luz, portas na sombra…a velha na luz, a criança a entrar na luz…».
Paul Almasy (1906-2003) disse que Quando se analisa uma imagem e se começa a pensar nela, esta torna-se problemática e portanto interessante…. A partir de algumas fotografias que captam “a vida da madeira”, o autor incrementa a meditação: «As pessoas e as relações são feitas de tábuas de madeira»; «podem ter nós ou concavidades, farpas ou não, periodicidades ou lisuras, grão fino ou grosso, ser construídas em apenas um ou em mais lanços (…) As relações entre as pessoas empenam, se estiverem expostas ao frio ou ao calor». Conclui-se que, como a madeira que se quer que resista ao tempo, as relações entre as pessoas para se manterem exigem cuidados regulares: «as relações entre as pessoas alteram-se com o tempo. Umas vezes vão-se desfazendo, outras vezes ficam mais rígidas. E estragam-se se não forem tratadas periodicamente».
Também a metáfora dos graffiti surge associada às relações entre as pessoas: A vida também é graffiti e «os gatafunhos que desenhamos e trocamos uns com os outros» às vezes até ficam quadros bonitos.
Em «Vida para dentro» incita-se a mudar de perspectiva: «o fácil é olhar, o difícil é ver. E a melhor forma de ver não é pelos olhos, mas sim pelo sentir. O consciente é um instrumento de sobrevivência, rudimentar; o inconsciente somos nós, inteiros.». O objectivo é sempre fotografar almas, «como as ervas que captam água e a dirigem para o seu centro». Surgem fotografias do autor no centro onde renasce, no reencontro com as sequóias e zonas ardidas da floresta junto ao Pacífico, incentivando-nos a procurar esse nosso centro de vida: «também a floresta recicla os seus recursos, de forma controlada. (…) Foi este modelo de crescer que as sequóias me ensinaram: sempre pronto a dar nova vida, mesmo a partir de um pedaço de casca».
Há que ir com a «Vida para a frente», «Sometimes and then sometimes», com momentos ora de felicidade, ora de tristeza. O segredo é estar atento à Luz que surge através de aberturas. Mesmo que o céu oprima no seu cinza-chumbo, surgirão surpreendentes «frestas de luz que vêm dançar num sorriso». A fotografia atesta o milagre, o texto tenta dar-lhe sentido.
Na explanação das aprendizagens da luz, o nevoeiro surge como superfície de revelação. A fotografia da Ponte da Arrábida assim o demonstra: «muitas vezes o nevoeiro permite-nos esquecer detalhes sem importância e concentrar na essência das coisas.»; «Esquecer é mais difícil do que aprender… e o nevoeiro ajuda a esquecer.».
A mensagem de optimismo reitera-se de forma clara: a fotografia de uma janela gradeada na rua da Alfandega mostra que «Muitas grades são inúteis, mas nada como olhar de frente para elas para nos apercebermos até que ponto o são».
O álbum é uma apologia dos irreverentes que querem ser felizes. Um brilho para os olhos quentes e, através deles, para a alma: «por que será que todos os sonhos são tão cheios de calor?». No Epílogo, lança-se outra questão: «E agora como vai ser o futuro?». Com partilhas destas, certamente o futuro jamais será uma casa de solidão.

:: 28 Junho 2009

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